O Deus que governa nossos planos

A soberania de Deus sobre nossos caminhos, intenções e propósitos

Você provavelmente já fez muitos planos durante sua vida. Muitos dos que leem nem tinham sua faculdade, emprego ou cidade em seus planos. Alguns planos foram frustrados, outros deram certo, e alguns ainda aguardam resposta. Em todos eles, porém, podemos reconhecer que Deus sempre esteve no controle. O livro de Provérbios nos ajuda a enxergar essa ação de Deus em nossas vidas.

O livro de Provérbios é uma coletânea de sabedoria escrita, em sua maior parte, por Salomão durante seu reinado. Ele se divide em duas grandes partes. Do capítulo 1 ao capítulo 9, a sabedoria é apresentada como uma pessoa, acompanhada pelos ensinos de um pai para o filho, afirmando repetidas vezes que o princípio da sabedoria é temer ao Senhor. A partir do capítulo 10, o livro traz uma série de ditados sábios sobre diversos assuntos práticos. No capítulo 15, há uma concentração em Deus como aquele que conhece os corações e os desejos dos homens.

No capítulo 16, encontramos Salomão, um grande rei e temente a Deus, responsável por administrar, liderar e tomar decisões importantes, reconhecendo que nem ele nem os seus desejos dirigiam o curso da história. Acima de todos os planos humanos está aquele que governa. É a partir dessa perspectiva que podemos meditar sobre o Deus que governa nossos planos.

1. Deus define o resultado >

Salomão ensina que, mesmo quando o coração faz planos, a resposta certa vem de Deus. O coração, segundo o Teólogo Anthony Hoekema, é o centro religioso e ético do ser humano, de onde emanam pensamento, vontade, emoção e ação — a raiz da qual a vida exterior é o fruto. Além disso, Salomão instrui o leitor, no capítulo 4, a guardar o coração, pois dele procedem as fontes da vida.

A mesma lógica aparece no versículo 9:

“O coração do homem traça o seu caminho, mas o Senhor lhe dirige os passos.”

Ainda que os planos de alguém estejam no mais íntimo de sua vontade, quem decide o resultado é o Senhor. O texto também afirma que a resposta certa dos lábios vem do Senhor. Somente aquilo que Deus permite, segundo a sua vontade, é o que acontece. 

Provérbios 19:21 declara:

“Muitos propósitos há no coração do homem, mas o desígnio do Senhor permanecerá.”

Hoje se diz muito: “só depende de você”, “lute, sonhe, pois só você pode realizar os seus sonhos” ou “acredite em você que vai dar certo”. Mas o texto está dizendo que a resposta certa não vem de nós. Tudo depende do Pai, tudo depende do Senhor; a decisão final é d’Ele.

Tiago 4:13-16 destaca:

“Escutem, agora, vocês que dizem: “Hoje ou amanhã, iremos para a cidade tal, e lá passaremos um ano, e faremos negócios, e teremos lucros. Vocês não sabem o que acontecerá amanhã. O que é a vida de vocês? Vocês não passam de neblina que aparece por um instante e logo se dissipa. Em vez disso, deveriam dizer: “Se Deus quiser, não só viveremos, como também faremos isto ou aquilo.” Agora, entretanto, vocês se orgulham das suas arrogantes pretensões. Todo orgulho semelhante a esse é mau.”

O autor profere que essa atitude de quem se gaba dos próprios planos e conta com o sucesso deles é maligna, jactância, vaidade e arrogância. Em contraste, o Senhor Jesus orou ao Pai:

“Afasta de mim esse cálice; todavia, não seja como eu quero, e sim como tu queres.”

A igreja, portanto, deve agir como Jesus, e não como os arrogantes. Deve planejar sabendo que há um Deus acima dos planos, das intenções e dos objetivos, e que é Ele quem dá a resposta certa àquilo que queremos. Precisamos buscar conhecer a vontade do Senhor na oração, na comunhão e na leitura da Palavra, submetendo-nos a ela. Não devemos viver dizendo: “o que eu quero eu consigo; eu faço; posso ser o que eu quiser; vou para tal cidade; vou para tal campo; vou ganhar tanto”. Não somos nada para falar assim. D’Ele, e só d’Ele, vem a resposta certa.

2. Deus sonda o espírito

Depois de mostrar que Deus define o resultado, Salomão expõe uma verdade que aprofunda o temor que devemos ter ao traçar nossos caminhos. Todos os caminhos parecem certos àquele que planeja. Para ele, parecem ser uma boa ideia, parecem justos, parecem corretos. Mas o Senhor pesa o espírito — ou, em outras traduções, sonda o espírito.

Essa verdade é confirmada mais adiante, em Provérbios 21:2:

“Todo caminho do homem é reto aos seus próprios olhos, mas o Senhor sonda os corações.”

Essa é uma afirmação difícil de lidar, porque Salomão está dizendo que uma pessoa não consegue discernir plenamente se o que está fazendo é correto. Como pode alguém não conhecer a intenção do próprio coração? Jeremias nos mostra o motivo:

“Enganoso é o coração, mais do que todas as coisas e desesperadamente corrupto. Quem o conhecerá? Eu, o Senhor, esquadrinho o coração, eu provo os pensamentos; e isto para dar a cada um segundo o seu proceder, segundo o fruto das suas ações.” (Jr 17:9-10)

Essa é a situação na qual o pecado nos colocou. O resultado aparece em Provérbios 16:25: “Há caminho que parece direito ao homem, mas afinal são caminhos de morte”.

O Senhor Jesus, no evangelho de Mateus, confirma essa condição caída do coração ao dizer que dele procedem os adultérios, os homicídios, os maus desígnios e tantos outros males. Em João 16, ele diz aos seus discípulos que chegaria o tempo em que seriam expulsos das sinagogas e mortos, e aqueles que fariam isso ainda pensariam estar oferecendo culto a Deus. Cristo também foi alvo de semelhantes maus desígnios quando homens levantaram falso testemunho contra ele, planejando matá-lo enquanto acreditavam estar fazendo o que era justo. Mas Cristo conhecia o coração de cada um deles. O coração foi sondado pelo Senhor, e aqueles que não se arrependeram permaneceram no caminho de morte e receberam segundo o que mereciam.

Isso nos conduz a uma pergunta inevitável: o que Jesus verá se sondar o meu espírito? Sem a fé nele, sem o lavar regenerador no Espírito e sem receber um novo coração dele, tudo o que se pode ver é malignidade, engano e corrupção. Por isso, creia nesse Cristo, arrependa-se dos seus maus caminhos e ore como Davi:

“Vê se há em mim algum caminho mal e guia-me pelo caminho eterno; absolve-me das faltas que me são ocultas.”1

Então Ele, o Senhor que conhece seu coração, as absolverá, e você será perdoado para sempre.

3. Deus estabelece os desígnios

Depois de reconhecer que Deus conhece o coração e possui a palavra final, somos chamados a confiar a ele os nossos planos. Lido de forma isolada, o verso pode parecer uma promessa de que, quando confiamos em Deus, nossos planos sempre serão bem-sucedidos. Entretanto, ele não pode ser separado das verdades anteriores. Precisa ser entendido à luz delas.

Salomão quer que saibamos que, se é Deus quem tem a palavra final e se muitas vezes pedimos aquilo que não lhe agrada, então precisamos confiar nossas obras a ele. Provérbios 15:29 afirma:

“O Senhor está longe dos perversos, mas atende à oração dos justos.”

O apóstolo João apresenta essa mesma realidade em uma promessa belíssima:

“E esta é a confiança que nós temos para com ele: que, se pedirmos alguma coisa segundo a sua vontade, ele nos ouve. E, se sabemos que ele nos ouve quanto ao que lhe pedimos, estamos certos de que obtemos os pedidos que lhe temos feito.” (1Jo 5:14-15)

Quando Deus se agrada dos nossos planos, sua resposta é muito melhor do que podemos imaginar, porque é a vontade dele sendo realizada em resposta à nossa oração. A condição para que o pedido seja atendido não é o quanto você deseja, mas se esse pedido está de acordo com a vontade de Deus. Todos os planos que lhe agradam serão certamente bem-sucedidos.

Contudo, nem sempre agimos assim. Imagine um adolescente, sem nenhuma experiência ou maturidade, ignorando os conselhos de seu pai e resolvendo por si mesmo como quer viver a própria vida. É uma cena que naturalmente nos causa preocupação. Ainda assim, é assim que muitas vezes agimos com Deus. Essa é a loucura de quem não segue os conselhos de Deus nem lhe apresenta seus planos.

Por isso, devemos levar mais a sério a terceira petição da oração dominical:

“Seja feita a tua vontade, assim na terra como no céu.”

Devemos entregar ao Senhor as nossas obras e os nossos planos, esperando que ele ouça e responda segundo a sua vontade. Precisamos reconhecer que a vontade dele é sempre melhor. Só ele pode dar sucesso aos nossos planos; só ele pode estabelecê-los. E, louvado seja o Senhor, se você é filho de Deus, ele só fará isso se cooperar para o seu bem.

4. Deus tem seus propósitos

Sabendo que Deus responde conforme a sua vontade, Salomão afirma que há um determinado fim, um propósito, para cada resposta e para tudo o que ele faz. Ele dá a resposta certa, pesa o espírito e estabelece os desígnios justos para determinados fins. O texto diz “todas as coisas”. Isso significa que, em tudo, há um propósito — até mesmo naquilo que não parece fazer sentido para nós.

Não cai um pardal se Deus não permitir; os nossos fios de cabelo estão contados. E Provérbios 16:33 diz:

“A sorte é lançada no regaço, mas do Senhor procede toda decisão.”

Há um propósito até no que, para nós, parece aleatório.

O texto usa como exemplo uma realidade dura: até o perverso para o dia da calamidade. Deus criou pessoas e as entregou aos seus caminhos de morte para serem castigadas. Em Apocalipse 16:5-7, há uma adoração a Deus porque ele exerceu juízo sobre os maus. É uma verdade dura, mas Deus será glorificado no castigo dos perversos que não se arrependeram de seus pecados.

Podemos não saber o propósito particular de todas as coisas, mas sabemos que o Senhor faz tudo para sua glória, para seu louvor e para sua exaltação. Depois de passar onze capítulos expondo a doutrina da salvação dos fiéis, a condenação dos maus, a eleição e a redenção do Israel de Deus, o apóstolo Paulo encerra dizendo:

“Ó profundidade da riqueza, tanto da sabedoria como do conhecimento de Deus! Quão insondáveis são os seus juízos, e quão inescrutáveis, os seus caminhos! Porque dele, e por meio dele, e para ele são todas as coisas. A ele, pois, a glória eternamente. Amém!”2

Ele é o Deus de tudo. Governa sobre tudo e decide tudo. Não nos resta nada senão nos humilharmos diante desse Deus tremendo, tão grande, tão poderoso e tão rico em sabedoria, que criou todas as coisas pela sua palavra e fará tudo acontecer segundo sua vontade.

A cruz de Cristo é a expressão suprema dessa soberania. Pela vontade de Deus, Jesus foi levado, açoitado, escarnecido e crucificado. Mesmo assim, o plano bem-sucedido não foi o dos fariseus, nem o dos saduceus, nem o do povo, nem o do império. O plano bem-sucedido foi o plano da salvação. Foi o propósito de Deus de moer o seu Servo sofredor para nos dar a vida eterna. O plano deles era matar Jesus, mas Deus o ressuscitou e o fez assentar à sua direita.

Nós não sabemos o propósito particular de todas as coisas, mas podemos conhecer aquilo que nos foi revelado na Escritura. O propósito dos perversos é receber castigo no dia da calamidade. O propósito dos justos é receber a vida eterna, estar com Deus por toda a eternidade e receber o prêmio do chamado celestial, que é Cristo Jesus. Essa é uma promessa.

Diante disso, renda-se a esse Deus, submeta-se ao senhorio de Cristo e confesse-o como seu Senhor. Reconheça que você é um ser criado e que se rebelar contra o Criador é loucura. Não podemos desafiá-lo e não temos nenhum meio de escapar do seu governo e de suas decisões. Deus criou tudo para determinados fins, e chegará o dia em que todos eles serão cumpridos.

O Deus que governa nossos planos define o resultado, sonda o espírito e estabelece os desígnios para determinados fins.

Conclusão

Você com certeza fez muitos planos na sua vida. Alguns foram frustrados, outros deram certo e outros ainda aguardam resposta. Independentemente de como planejamos e cumprimos nossas responsabilidades, não temos controle sobre essas coisas. Porém, o Senhor escreveu todos os nossos dias, quando nenhum ainda havia, e escreveu nomes no seu Livro da Vida antes da fundação do mundo porque planejou a salvação deles em Cristo Jesus, e nada disso pode ser mudado ou destruído.

Como disse Jó:

“Bem sei que tudo podes, e nenhum de seus planos pode ser frustrado.”3

Créditos

Autor: Kennedy Souza

Editor: Tayllon Carvalho

Publicado originalmente pelo Semper Reformanda. Todos os direitos reservados


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Leia também:

  1.  Salmos 139:24;  Salmos 19:12b ↩︎
  2.  Rm 11:33-36 ↩︎
  3. Jó 42:2 ↩︎
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