Desconfortavelmente Limitado

A Beleza Frustrante da Finitude

Quando você tomou consciência de sua finitude pela primeira vez?

Para alguns, essa pode parecer uma pergunta engraçada. Quando eu não estive familiarizado com a finitude? Desde que consegue se lembrar, você tem sido confrontado com os limites que você encontra no espelho. Às vezes, pode até parecer que o espelho ganhou vida e passou a segui-lo, carregando suas falhas e imperfeições para onde quer que você vá. Há um amigo mais chegado que um irmão, e a finitude se aproxima ainda mais.

Para onde me ausentarei dos meus limites?
Ou para onde fugirei da minha fraqueza?
Se trabalho diligentemente noite adentro, lá estás!
Se acordar cedo antes dos outros, lá estás também!
Se eu der tudo o que tenho, fizer tudo o que conseguir, e tornar todo esforço possível,
mesmo ali tu me encontrarás.

A finitude, é claro, atinge uma dúzia de nervos diferentes. Você pode se cansar mais rapidamente do que os outros e terminar a maioria dos dias preocupado com o que deixou de fazer. Você pode ter dificuldade para adormecer ou continuar dormindo. Ou, se surge uma chance de ficar doente, seu corpo parece aproveitá-la. Talvez você tenha lutado contra doenças crônicas ou dores persistentes por anos ou até décadas. Ou você é chamado a viver algum relacionamento difícil que sempre parece exigir mais do que você consegue dar.

É parte do mistério e da genialidade da humanidade — essas criaturas capazes de dominar a eletricidade, transplantar um coração e pisar na Lua ainda assim precisam de cochilos e atestados médicos.

Quaisquer que sejam suas limitações, você provavelmente pode sair e ver algo de si mesmo nessas minúsculas folhas verdes de grama sob os seus pés:

“Quanto ao ser humano, os seus dias são como a relva. Como a flor do campo, assim ele floresce; mas, soprando nela o vento, desaparece e não conhecerá, daí em diante, o seu lugar” (Salmos 103:15-16).

Grama de Dois Metros de Altura

Se você seguir essa trilha verdejante pelas Escrituras, perceberá que nossa finitude não é um acidente que tão frequentemente parece ser (ou pelo menos nos sentimos assim em certos momentos). Acredite se quiser, isso na verdade é um desígnio.

“Os seres humanos são finitos para maximizar, não minimizar, o que foram feitos para serem e fazerem.”

Observe que, mesmo antes da queda (antes de nossa necessidade de redenção), Deus nos fez inevitavelmente limitados. Agora, depois da queda, Ele usa nossa finitude para nos atrair de volta para Ele. Desde o princípio, os seres humanos são finitos para maximizar, não minimizar, o que foram feitos para ser e fazer. Ser plenamente humano requer sentir e abraçar os limites de nossa existência. Mesmo os humanos glorificados vivendo com Deus nos novos céus e na nova terra ainda são finitos — livres do pecado, da dor e da tristeza, mas não sem os limites de um corpo.

Sabemos que nossa finitude é intencional e proposital, porque Deus a menciona repetidamente na Bíblia. Ao fazer isso, Ele frequentemente recorre à erva (que, lembre-se, Ele mesmo projetou e plantou soberanamente).

Uma voz diz: “Proclame!” E alguém pergunta: “Que hei de proclamar?” Toda a humanidade é erva, e toda a sua glória é como a flor do campo. A erva seca e as flores caem, soprando nelas o hálito do Senhor. Na verdade, o povo é erva. (Isaías 40:6-7).

Enquanto escrevo, nosso quintal está sem chuva há várias semanas. Apesar de algum esforço real (modesto), estou vendo em tempo real a vida breve e frágil do meu pobre gramado definhar. E estou aprendendo sobre mim mesmo. Toda carne é como a erva, até a minha, e minha breve primavera e verão logo darão lugar ao inverno.

Mas a relva não é a única janela que temos para a finitude. Ainda no Salmo 103, Deus nos dá outra metáfora para nossas limitações: “Pois ele conhece a nossa estrutura e sabe que somos pó” (Salmo 103:14). O homem foi formado do pó, e todos nós devemos retornar ao pó. Entre esses momentos, somos pequenos, breves e frágeis, como o pó. Pó que veio do Pó e irá retornar ao Pó.

“No suor do seu rosto você comerá o seu pão, até que volte à terra, pois dela você foi formado; porque você é pó, e ao pó voltará” (Gênesis 3:19; Eclesiastes 3:20).

Como a relva, como o pó, como uma única gota de água: “Eis que as nações são consideradas por ele como um pingo que cai de um balde e como um grão de pó na balança; eis que ele carrega as ilhas como se fossem pó fino” (Isaías 40:15). Fomos feitos para nos sentirmos assim, como uma relva de 2 metros de altura, como uma neblina de 88 quilos. Se você sente o desconforto da finitude, você não está sozinho e não está louco. Você é humano.

Orações de Finitude

Quanto mais percorro pelo campo do Salmo 103 em particular — “Quanto ao ser humano, os seus dias são como a relva” (v. 15) — mais percebo que a finitude se entrelaça por todo o salmo. Estes têm sido alguns dos meus versículos favoritos para orar em toda a Bíblia:

“Bendiga, minha alma, o Senhor, e tudo o que há em mim bendiga o seu santo nome. Bendiga, minha alma, o Senhor, e não se esqueça de nem um só de seus benefícios. Ele é quem perdoa todas as suas iniquidades; quem cura todas as suas enfermidades; quem da cova redime a sua vida e coroa você de graça e misericórdia. É ele quem enche de bens a sua vida, de modo que a sua mocidade se renova como a da águia” (Salmos 103:1-5).

Amo esses versículos há muito tempo por proclamarem a altura, a largura e a profundidade do poder e do amor de Deus. Recentemente, aprendi a apreciá-los ainda mais por serem orações de vulnerabilidade e finitude. Estas são as orações de:

  • pessoas familiarizadas com a doença (“que cura todas as suas enfermidades”)
  • pessoas em situações desesperadoras (“quem da cova redime a sua vida”)
  • pessoas lutando com a fraqueza (“a sua mocidade se renova como a da águia”)
  • pessoas sobrecarregadas pelo pecado (“quem perdoa todas as suas iniquidades”)
  • pessoas que foram injustiçadas e feridas ( “faz justiça e julga todos os oprimidos”).

Em apenas algumas linhas, cada um de nós pode encontrar alguém com quem se identificar em nossa finitude. Podemos encontrar um clamor para qualquer momento de fragilidade que vivenciamos. Também encontramos um Deus pronto para nos acolher e abençoar em nossas limitações e fraquezas pessoais.

“A finitude existe para nos guiar à Infinitude.”

Aonde a Finitude Nos Conduz

Se permitirmos, a finitude realmente nos ajudará a viver vidas mais felizes e plenamente humanas, mas somente se enxergarmos através da relva, do pó, da neblina, do pingo de água. Siga o Salmo 103 pelo campo: “Quanto ao ser humano, os seus dias são como a relva. Como a flor do campo, assim ele floresce; mas, soprando nela o vento, desaparece e não conhecerá, daí em diante, o seu lugar. Mas…” (v. 15-16). Agora vamos descobrir aonde o bom caminho da finitude nos leva. Toda a nossa fraqueza, doença, frustração e desapontamento têm nos conduzido até e através desta sentença:

“Mas a misericórdia do Senhor é de eternidade a eternidade sobre os que o temem, e a sua justiça, sobre os filhos dos filhos, para com os que guardam a sua aliança e para com os que se lembram dos seus preceitos e os cumprem. Nos céus, o Senhor estabeleceu o seu trono, e o seu reino domina sobre tudo” (Salmos 103:17-19).

A finitude existe para nos guiar à Infinitude. Deus nunca fica fraco ou cansado. Ele nunca precisa de ajuda. Ele nunca peca. Ele nunca se sente preso ou desesperado. Ele nunca precisa dormir ou tirar uma soneca. Ao contrário de nós, Ele não é como a relva. Se todas as nações são como um pingo que cai de um balde, o seu reino é um oceano.

Assim, à medida que, vez após vez, nos deparamos com nossos limites — quando sentimos intensamente que somos pó hoje, amanhã ou no próximo ano — somos chamados a ver e sentir sua infinitude. Não há limites para a sua capacidade, não há rédeas para o seu poder, não há vulnerabilidades em seu plano, suas misericórdias não tem fim. A relva de nossas vidas curtas, complicadas, confusas e muitas vezes desanimadoras deve nos levar ao seu trono de amor inabalável. Cada limite e fraqueza que nos distingue de Deus pode nos ajudar a experimentá-lo mais.

Ele Conhece Nossa Estrutura

Sendo infinito, você pode pensar que Deus teria dificuldade em se relacionar com criaturas finitas como nós, mas não. Em sua infinitude, ele inclina seu coração para ser pai dos fracos e falhos, amando-nos como se fôssemos seus próprios filhos. Ele nos ama mais do que um pai terreno poderia (Lucas 11:13).

“Como um pai se compadece de seus filhos, assim o Senhor se compadece dos que o temem. Pois ele conhece a nossa estrutura e sabe que somos pó” (Salmos 103:13-14).

Sabemos da nossa estrutura, murmuramos e nos desesperamos. Deus conhece nossa estrutura (ainda mais do que nós mesmos) e, em vez de reclamar de nós ou nos rejeitar, ele se aproxima para nos fortalecer e ajudar. Em Cristo, seu poder se aperfeiçoa em nossa fraqueza (2 Coríntios 12:9). Ele se aproxima da nossa fragilidade com o coração de um pai dedicado, não de um chefe implacável. Se o temermos e o seguirmos, os limites que somos tentados a desprezar em nós mesmos agitam e inflamam as brasas de sua compaixão.

E ele não apenas conhece a nossa estrutura, mas enviou Seu Filho para assumir nossa condição. Nosso Deus é o único Deus já concebido que pode compadecer-se com a finitude. Jesus viveu uma vida curta, fisicamente exigente, relacionalmente desafiadora e cheia de batalhas contra tentações. Ele dormiu e ficou doente. Ele até morreu. E então, ressuscitou para dar a sua vida, semelhante à relva, um peso e uma glória dignos de trono.

Então, se você se sente um pouco como a relva, deixe que essas folhas verdes e pontiagudas o guiem para o alto e o afastem de suas frustrações e inseguranças para o Deus que conhece, planejou, viveu e redime sua finitude.

Créditos

Tradução: Tayllon Carvalho

Publicado em Inglês no site Desiring God. Traduzido e publicado com autorização.

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